Guia de implementação
Hoshin Kanri.
Hoshin Kanri, conhecido no Brasil como gerenciamento pelas diretrizes (GPD), é um sistema de gestão que converte poucos objetivos breakthrough em metas, KPIs e iniciativas alinhadas em todos os níveis da planta, com análise mensal durante um ano inteiro. Ele depende de dois números e de um verbo: três objetivos breakthrough, não trinta, e negociar no catchball em vez de cascatear por e-mail. A matriz X é apenas o registro dessa conversa. Se a conversa não aconteceu, a matriz é enfeite de parede.
O que é Hoshin Kanri
Hoshin é agulha da bússola em japonês; kanri é gestão. O método nasceu no movimento japonês da qualidade nos anos 1960, viajou em inglês como policy deployment e chegou ao Brasil pelos livros de Falconi como gerenciamento pelas diretrizes. Tire o vocabulário e sobram três atividades ligadas: escolher pouquíssimos objetivos breakthrough, desdobrá-los por todos os níveis da organização até cada nível saber qual é a sua contribuição mensurável, e acompanhar o avanço num ritmo mensal fixo durante o ano inteiro.
Direção, desdobramento, análise. Quase toda indústria já tem a primeira parte: existe uma apresentação de estratégia em algum lugar. O que costuma faltar são os outros dois terços. A estratégia fica na sala da diretoria, o chão de fábrica vive dos hábitos do ano passado e dos incêndios da semana, e os dois se encontram uma vez por ano, na época do orçamento. O Hoshin Kanri é a máquina que liga um ao outro, e o mecanismo de ligação tem nome: catchball, a negociação estruturada em que cada nível joga para baixo os objetivos que propõe e o nível de baixo devolve o que consegue assumir, o que não consegue e do que precisaria. As metas descem, os meios e as objeções sobem, e o plano muda por causa disso.
Por isso Hoshin Kanri não é um evento anual de planejamento. Se acontece só em janeiro, é orçamento com etapas a mais. O plano é a parte barata; o sistema é a análise mensal que mantém três números vivos na agenda de cada líder por doze meses. E a famosa matriz X, aquela grade de uma página que liga objetivos, iniciativas, KPIs e responsáveis, é só o registro da conversa de catchball. Se a conversa não aconteceu, a matriz é enfeite de parede.
Onde entra no roadmap da transformação
No roadmap de implantação do TeamGuru, o Hoshin Kanri é a prática de desdobramento da estratégia na etapa de montagem da estrutura. Ele vem depois do diagnóstico de propósito, e não antes: breakthrough escolhido no feeling costuma sair errado, e a planta que já percorreu seus fluxos com mapeamento do fluxo de valor e estabeleceu KPIs de linha de base confiáveis escolhe seus dois ou três breakthroughs com evidência. Depois, as metas desdobradas precisam de um lugar onde aterrissar, e é por isso que o gerenciamento diário vem logo em seguida.
- Antes Diagnóstico do estado atual
- Antes KPIs de linha de base
- Você está aqui Desdobramento da estratégia
- Em paralelo Desenho do estado futuro
- Depois Gerenciamento diário
Quando não começar
O Hoshin Kanri pressupõe uma planta capaz de medir, escolher e sustentar um ritmo. Três situações mostram que a premissa ainda não vale:
- Não existe linha de base. Se ninguém consegue dizer o OTD, o refugo ou as paradas com um número em que o chão de fábrica confia, qualquer meta breakthrough é chute. Primeiro a medição, depois a estratégia.
- A liderança não vai dizer não aos projetos que já existem. O Hoshin Kanri é um método de descarte vestido de planejamento; se todo projeto atual sobrevive ao plano, você vai acabar com o enfeite de parede de trinta objetivos.
- A rotina de apagar incêndio é tão intensa que os problemas de hoje consomem toda reunião. Estratégia desdobrada no caos evapora até terça-feira. Monte primeiro o sistema de gerenciamento diário, para haver uma camada estável onde a estratégia possa pousar.
No terceiro caso a ordem se inverte de propósito: coloque em pé primeiro o gerenciamento diário lean, estabilize o dia e desdobre a estratégia dentro de um sistema capaz de sustentá-la. Hoshin desdobrado no meio dos incêndios gera um plano que ninguém tem tempo de executar e uma análise a que ninguém comparece.
Como conduzir o ciclo anual
O ciclo abaixo dura um ano, mas só os passos 1 a 4 são planejamento, e eles devem caber em 4 a 8 semanas no total. Os passos 5 a 7 são a parte que a maioria das implantações pula, e são justamente o que separa um sistema de gestão de um cartaz.
The Hoshin Kanri annual cycle
Seven stations, one year: plan in 4 to 8 weeks, then execute and review for the rest.
| Passo | Quem participa | Entrega |
|---|---|---|
| 1. Definir a visão e os breakthroughs | Gerente industrial e o time de liderança, com base no diagnóstico | Dois ou três objetivos breakthrough num horizonte de 3 a 5 anos, cada um com um número e uma data. Não são temas nem valores: são resultados mensuráveis que o diagnóstico apontou como os mais importantes. |
| 2. Definir os objetivos do ano | Time de liderança, uma sessão de trabalho e uma revisão | Para cada breakthrough, a fatia que este ano precisa entregar, escrita como um objetivo anual mensurável, mais a lista dos projetos que serão parados ou adiados para liberar capacidade. |
| 3. Fazer o catchball nível a nível | Cada líder com sua equipe direta, nível a nível, nos dois sentidos | Objetivos de área, KPIs e iniciativas negociados. Quem vai entregar a meta questionou os números, propôs os meios e mudou pelo menos alguma coisa. |
| 4. Fechar a matriz X | Time de liderança mais um responsável pelo desdobramento, que cuida do documento | Uma matriz X por nível, ligando breakthroughs, objetivos anuais, iniciativas e KPIs, com um responsável nominal em cada linha. A matriz registra o acordo que o catchball produziu. |
| 5. Executar com análises mensais | Responsáveis pelos objetivos e time de liderança, todo mês, com hora marcada para acabar | Realizado do KPI contra a meta, uma contramedida com responsável e prazo para cada vermelho, e decisões: iniciativas destravadas, com recursos ou encerradas. |
| 6. Ajustar no meio do ano | Time de liderança, um ponto de controle agendado por volta do sexto mês | Metas ou iniciativas revisadas onde a realidade se afastou do plano, com registro do que mudou e por quê, para que a reflexão anual tenha fatos na mão. |
| 7. Reflexão anual (hansei) | Todos que foram responsáveis por um objetivo ou uma iniciativa | Uma avaliação honesta do que o próprio processo errou: metas definidas no escuro, catchball pulado, análises que perderam o rumo. As conclusões alimentam o passo 1 do ciclo seguinte. |
Decisões que moldam o ciclo
Cinco decisões definem se os sete passos vão gerar alinhamento ou papelada:
- Segure a lista em três breakthroughs. Se um quarto parecer essencial, ele substitui um dos três; não entra junto. Cada objetivo a mais corta pela metade a atenção que sobra para os outros.
- Faça catchball em pelo menos dois níveis: liderança da planta com gerentes de área ou de fluxo de valor, depois as áreas com seus supervisores, onde o supervisor vai ser responsável por um KPI. Abaixo disso, quem leva a meta é o gerenciamento diário, não o catchball.
- Limite todo o ciclo de planejamento a algo entre 4 e 8 semanas. O catchball se espalha pelo tempo que você der a ele, e um plano fechado em março é um plano de nove meses vendido como anual.
- Escreva a lista do que não será feito e publique junto com o plano. Nomear os projetos que você está parando ou adiando é o que libera capacidade; um plano Hoshin que não cancela nada é um acréscimo, não um desdobramento.
- Um responsável nominal por objetivo, KPI e iniciativa. Uma área não assume uma meta. Uma pessoa assume.
Ferramenta gratuita
Escreva as cinco decisões em uma matriz X
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Um breakthrough seguido até o fim
Os números abaixo são ilustrativos, mas coerentes entre si, e vêm do mesmo fabricante de componentes com 450 pessoas usado em todo o roadmap da transformação: 456 peças por dia entre corte, usinagem, solda e montagem, com a entrega no prazo travada em 79%. O diagnóstico mostrou que a maior parte dos atrasos vinha da disponibilidade de usinagem e de material comprado que chegava fora do prazo. Veja um breakthrough seguido até embaixo, com a redação mudando em cada nível:
Objetivo breakthrough, dois anos
Responsável: gerente industrial
Elevar a entrega no prazo de 79% para 95% em dois anos.
Linguagem de resultado. Um cliente reconheceria essa frase, e nenhuma área entregaria isso sozinha.
Objetivo anual, este ano
Responsável: gerente de produção
Chegar a 88% de entrega no prazo em dezembro, cortando pela metade os atrasos causados por disponibilidade de usinagem e por material comprado fora do prazo.
Ainda é resultado, mas agora nomeia as duas causas que o trabalho deste ano vai atacar. As causas vieram dos dados dos atrasos, não de opinião.
Objetivo da área de usinagem
Responsável: gerente de usinagem
Elevar a aderência ao programa de usinagem de 81% para 93%, reduzindo as paradas não planejadas dos dois centros gargalo de 26 para 10 horas por semana.
Linguagem de processo. Ninguém de fora da planta escreveria essa frase, e é exatamente esse o ponto: a redação fica mais concreta a cada nível, enquanto a conta continua fechando com o breakthrough.
O que a usinagem acompanha e conduz na prática
- KPI 1: aderência ao programa de usinagem, semanal, de 81% para 93% até o 4º trimestre
- KPI 2: paradas não planejadas nos centros 4 e 7, semanal, de 26 para 10 horas até o 3º trimestre
- Iniciativa: programa de manutenção planejada nos centros 4 e 7. Responsável: líder de manutenção. Primeiros 90 dias com escopo fechado e análise mensal.
Repare no que o catchball fez com essa linha. A primeira versão entregou à usinagem uma meta de 97% de aderência. O time de usinagem voltou com seus dados de parada e de atraso mostrando que um terço dos desvios de programa começava em material comprado que chegava tarde, e isso eles não controlam. Resultado: a meta da usinagem parou em 93%, a área de compras assumiu um objetivo próprio para a entrega no prazo dos fornecedores, e a redação do objetivo anual foi reescrita para nomear as duas causas. O plano ficou mais honesto porque foi negociado. Essa revisão não é fraqueza do processo. É o processo.
A regra geral que essa linha ilustra: o objetivo de cada nível responde “como” para o nível de cima e “por quê” para o nível de baixo. No topo do desdobramento se fala a língua do cliente; embaixo se fala a língua dos centros de usinagem e das horas. Quando todos os níveis dizem a mesma coisa, não houve desdobramento, houve distribuição.
O ritmo das análises
A análise mensal do Hoshin é onde o sistema se paga, e ela é um bicho diferente de uma reunião de status. Três regras a mantêm honesta. Primeira: o material é o registro de trabalho, ou seja, a matriz X e os gráficos de KPI ao vivo, os mesmos números que o chão de fábrica enxerga, e não slides montados na véspera. Segunda: todo KPI fora da meta sai da sala com contramedida, responsável e prazo; explicar um desvio não é a mesma coisa que fechá-lo. Terceira: a análise decide. As iniciativas são destravadas, recebem recursos ou são encerradas ali, pelas pessoas que estão ali. Uma análise que termina marcando outra análise falhou no seu único trabalho.
Noventa minutos bastam para analisar três breakthroughs no nível da planta, se cada responsável chegar com seus números atualizados, e só continuam bastando enquanto a quantidade de objetivos ficar pequena. Esse ritmo mensal se apoia na estrutura de análise crítica pela direção que a planta já tem, em vez de correr ao lado dela: encaixe os objetivos do Hoshin na mesma reunião mensal, sem criar um segundo fórum concorrente, e deixe as reuniões de nível diárias e semanais cuidarem dos sinais de curto prazo, para que a análise mensal fique no nível dos objetivos e das contramedidas.
Modos de falha
O Hoshin Kanri falha de formas conhecidas e repetidas, e quase todas ficam visíveis nos dois primeiros meses para quem sabe o que procurar:
Como é quando vai mal
- Trinta objetivos com subobjetivos, e ninguém consegue citar um de cabeça
- Metas sem responsável, ou sob responsabilidade de uma área em vez de uma pessoa
- Teatro de catchball: as reuniões aconteceram, mas cada número voltou exatamente como desceu
- A matriz X mora na planilha de um engenheiro de melhoria contínua e mais ninguém sabe explicar uma linha
- Análises mensais que admiram os gráficos, empurram os itens difíceis e não decidem nada
Como é quando vai bem
- Três breakthroughs que qualquer supervisor cita sem consultar nada
- Cada objetivo, KPI e iniciativa com um responsável nominal
- O catchball mudou pelo menos uma meta ou uma iniciativa em cada nível
- Cada responsável mantém suas próprias linhas; a matriz é lida nas análises, nunca remontada para elas
- As análises terminam em decisão: contramedida atribuída, iniciativa encerrada ou destravada
O que vem depois
Daqui seguem dois caminhos. O primeiro é o registro de trabalho: o guia da matriz X mostra como montar e ler a página única, e o guia do catchball entra fundo na condução da negociação, inclusive no que fazer quando um nível reage com força. O segundo caminho desce: os KPIs desdobrados precisam chegar aos quadros que o chão de fábrica usa todo dia, que é o terreno da árvore de indicadores e do gerenciamento diário lean. Um breakthrough que nunca aparece num quadro de nível é um breakthrough em que a planta não está trabalhando.
O ponto de falha prático nos dois caminhos é o mesmo: as ligações entre objetivos, KPIs, iniciativas e responsáveis se desfazem no momento em que passam a viver em planilhas soltas. É aqui que trabalha o caso de uso de desdobramento da estratégia do TeamGuru, mantendo cada objetivo ligado aos seus KPIs, às suas iniciativas e aos seus responsáveis, da diretoria até as ações da semana, para que a análise mensal leia dados ao vivo em vez de uma reconstrução. No roadmap, a próxima prática é o gerenciamento diário: o sistema que transforma os três números do ano na conversa de toda manhã.
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Baixar PNGPerguntas frequentes
O que significa Hoshin Kanri?
Qual é a diferença entre Hoshin Kanri e OKR ou APO?
Quantos objetivos deve ter um plano Hoshin?
Quanto tempo leva o desdobramento Hoshin?
Até que nível o catchball deve descer?
E quando a realidade muda no meio do ano?
Como funciona no TeamGuru