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Guia de implementação

Catchball.

Catchball é a etapa de negociação dentro do planejamento Hoshin: a meta proposta vai e volta entre os níveis da organização até virar compromisso. Quem recebe devolve com dados na mão: isto é o que conseguimos assumir, este é o tamanho do buraco e isto é o que precisamos para fechá-lo. Meta que voltou igual nunca foi realmente recebida. Feito com honestidade, de duas a quatro semanas de catchball evitam um ano inteiro de metas que ninguém assumiu.

O que é o catchball

O catchball é o verbo do desdobramento dentro do planejamento Hoshin: a etapa em que a meta proposta deixa de ser recado e vira negociação. Um nível joga a meta para baixo junto com o raciocínio dela. O nível de baixo confere contra os próprios dados e devolve: com o que temos hoje, conseguimos assumir isto; o buraco até o seu número é este; e para fechá-lo precisamos disto. As rodadas seguem até que os dois níveis tenham o mesmo número, com as condições dele, por escrito.

O nome é para ser entendido ao pé da letra. Bola que foi jogada e nunca voltou não foi recebida, foi derrubada. É essa a diferença entre catchball e cascata: a cascata comunica, o catchball negocia. As duas entregam uma planilha de metas até janeiro. Só uma delas entrega gente que falou sério.

O teste prático é simples: as metas voltam diferentes? Se todo número atravessa o desdobramento exatamente como foi proposto, uma de duas coisas é verdade. Ou o topo sabe de cor os tempos de setup, os buracos de efetivo e a saúde das máquinas três níveis abaixo, ou os níveis de baixo concluíram que discordar é perigoso e assinaram embaixo de números em que não acreditam. A primeira é rara. A segunda é como a planta vai parar em outubro explicando um desvio que os supervisores já previam em fevereiro.

Onde o catchball entra no roteiro

O catchball faz parte da prática de desdobramento da estratégia, na etapa Montar a estrutura do roteiro de transformação. Ele depende da etapa de diagnóstico mais do que parece: as contrapropostas que fazem o catchball valer alguma coisa são montadas com os números que o diagnóstico do estado atual levantou. Corre em paralelo ao desenho do estado futuro, que fornece os projetos de melhoria que viram condições das metas, e entrega o que produziu, metas com dono e condições escritas, para o gerenciamento diário, onde os números encontram o chão de fábrica.

Por que o desdobramento por e-mail falha

A alternativa de sempre é a cascata: a diretoria calcula as metas do ano, distribui numa planilha e comunica o resultado numa reunião geral e num e-mail. É rápido, é organizado e falha do mesmo jeito todo ano. Os números chegam sem dono. Ninguém na ponta receptora foi perguntado do que aquele número precisaria, então ninguém trouxe as condições à tona, então os recursos de que a meta dependia nunca foram disputados enquanto ainda havia orçamento na mesa.

A ilusão de alinhamento que isso cria é mais perigosa do que a divergência aberta. A planta em que o gerente de fluxo de valor diz, ainda no planejamento, que 92% não se alcança com o setup atual é uma planta capaz de decidir alguma coisa: bancar o projeto de setup ou aceitar 88%. A planta em que todo mundo concorda com a cabeça descobre o mesmo fato na análise do 3º trimestre, como justificativa, quando as opções já se fecharam. Discordar em janeiro é informação. Concordar sem querer é bomba-relógio com pavio do tamanho do ano fiscal.

Os sintomas da cascata são fáceis de checar: gestores que não sabem dizer de onde veio o número deles, metas cujas condições não estão no plano de ninguém, conflitos de capacidade descobertos durante a execução e o ritual de fim de ano de explicar desvios que quem está perto do processo já previa antes de o ano começar.

Como conduzir o catchball

Faça o catchball entre pares de níveis vizinhos: primeiro a liderança da planta com os gerentes de área ou de fluxo de valor, depois os gerentes de área com suas equipes, para as metas que mudaram. Não monte um revezamento em série por seis níveis; rode os pares em paralelo e limite o exercício inteiro a duas ou quatro semanas. Catchball é uma fase do calendário de planejamento, com data para acabar, e não um comitê permanente.

Uma rodada é uma jogada com conteúdo obrigatório. A jogada de abertura leva o número proposto e a razão estratégica por trás dele. A devolução leva três coisas: o número que este nível assume com os recursos de hoje, o buraco até a proposta e o que fecharia esse buraco. A rodada de fechamento é uma decisão: bancar o que foi pedido, aceitar a contraproposta ou bater o martelo e assumir o risco que ela apontou.

O lado sênior tem a tarefa mais difícil. A contraproposta não é resistência, ela é o método inteiro, e o jeito como um gestor recebe a primeira decide se haverá uma segunda. Trate uma contraproposta com dados como deslealdade e você terá exatamente uma temporada de honestidade, seguida de anos de cabeças balançando educadamente. Quem tem rodagem agradece em voz alta e em público a primeira contraproposta honesta, porque todo mundo está olhando para ver o que acontece com quem devolveu a bola.

Saiba a hora de parar. Duas rodadas honestas valem mais que cinco educadas; isso é uma opinião, e esta página a defende com convicção. Na terceira rodada a conversa deveria terminar em uma destas três frases: bancamos, aceitamos o seu número, ou estamos escolhendo o risco e ele agora é meu. O que ficar em aberto depois disso não é negociação, é enrolação.

Um diálogo de três rodadas, na prática

Os números abaixo são ilustrativos, mas batem entre si. Vêm do mesmo fabricante de componentes com 450 pessoas usado nestes guias: 456 peças por dia, dois turnos, entrega no prazo em 79% e um setup de usinagem de 47 minutos que um projeto de SMED poderia levar a 18.

Rodada A jogada O que cada lado traz
Rodada 1: a proposta (semana 1) O gerente industrial joga para o gerente de fluxo de valor: a entrega no prazo sobe de 79% para 92% neste ano. O porquê vai junto: a renovação de contrato com os dois maiores clientes depende do desempenho de entrega, e o OTD está na matriz X da planta como objetivo breakthrough. Quem joga traz a razão estratégica e um primeiro número. Quem recebe ainda não traz nada, só um compromisso: resposta com dados em uma semana.
Rodada 2: a contraproposta (semana 2) O gerente de fluxo de valor devolve: o Pareto dos pedidos atrasados mostra que a maior parte dos atrasos vem do setup da usinagem. Com 47 minutos de setup, os lotes precisam cobrir cerca de três dias de demanda, e é esse tamanho de lote que quebra a programação. Do jeito que está, 88% se alcança com programação e disciplina de supermercado. Para 92% é preciso bancar o projeto de redução de setup. A contraproposta vem com dados (o Pareto e a conta do tamanho de lote), com o número que este nível assume (88%) e com as necessidades: um projeto de SMED com técnico definido, verba de ferramental e tempo de máquina para testes.
Rodada 3: o acordo (semana 3) Os dois níveis fecham: 90% até o fim do ano, com o projeto de SMED aprovado e um marco anexado, setup abaixo de 20 minutos até o fim do 2º trimestre. Se o marco atrasar, a meta é renegociada às claras, e não perdida em silêncio. O gerente industrial traz a decisão sobre recursos e aceita 90% no lugar de 92%. O gerente de fluxo de valor traz a responsabilidade pelo número. A condição fica escrita ao lado da meta, não guardada na memória.

Repare no que a rodada 2 fez: tirou a conversa da ambição e colocou na física. A contraproposta nunca disse que a meta era alta demais; disse quanto a meta custa. É por isso que os 90% com projeto aprovado valem mais do que os 92% originais. Eles chegam com plano, marco e responsável no lugar de esperança, e o gerente industrial sabe exatamente o que foi trocado pelos dois pontos.

As regras do jogo

O catchball se sustenta em um punhado de regras que todo mundo conhece e que o nível sênior cumpre à vista de todos. Publique as regras junto com o calendário de planejamento e deixe qualquer pessoa, de qualquer nível, apontar uma infração sem cerimônia.

  1. Toda jogada volta em até uma semana. Meta parada na caixa de entrada não está sendo estudada, está sendo evitada, e a janela de planejamento está queimando.
  2. Contraproposta vem com dados. “Muito ambicioso” é opinião; um Pareto dos atrasos do ano passado com a restrição identificada é uma resposta.
  3. As necessidades fazem parte da resposta. “Chegamos a 92% se o projeto de setup for bancado” é uma jogada completa. “Não chegamos a 92%” é meia jogada.
  4. Silêncio não é concordância. Quem nunca devolveu a bola não assumiu nada, por mais que a planilha de desdobramento diga o contrário.
  5. O número final é escrito com suas condições. Se a meta depende de um projeto, o marco do projeto mora ao lado da meta, e um marco atrasado reabre o número.

Catchball além das metas anuais

O mesmo mecanismo de jogar e devolver desdobra bem mais do que números de KPI. A escolha de iniciativas funciona: as equipes propõem projetos de melhoria para cima, a liderança devolve com o encaixe estratégico e os limites de capacidade, e o portfólio que sobrevive a duas rodadas é menor, mais bem argumentado e tem dono de verdade. Disputa de recursos também funciona: quando dois fluxos de valor precisam do mesmo ferramenteiro, uma rodada de catchball no planejamento resolve a troca enquanto ainda é questão de programação, em vez de deixar a briga para a execução, quando já virou emergência.

O terceiro uso é a renegociação no meio do ano. Quando uma condição escrita atrasa, digamos que o marco do SMED escorregue um trimestre, faça uma rodada curta de catchball na meta afetada em vez de deixá-la morrer em silêncio. Um 89% renegociado com nova data preserva o que um 90% perdido em silêncio destrói: o hábito de o número significar o que ele diz.

Erros mais comuns

A maioria dos fracassos do catchball segue uns poucos padrões visíveis, e o mais discreto deles é a condição esquecida: combina-se uma meta com uma condição junto, a condição atrasa e, na hora da análise, só o número é lembrado e cobrado. Evite isso pela estrutura, não pelo heroísmo. Escreva as condições na matriz X ao lado das metas que elas viabilizam, para que toda análise que lê a meta leia as condições na mesma olhada.

Como é quando vai mal

  • A resposta já estava definida antes da primeira jogada; as rodadas são teatro agendado
  • Rodadas sem fim: já vai a quinta, e negociar virou tática para empurrar com a barriga
  • Resistência sem dados: contrapropostas com adjetivos no lugar de Paretos
  • Condições combinadas de boca em março, esquecidas em junho, meta cobrada em outubro
  • Um revezamento em série por todos os níveis que come o trimestre inteiro

Como é quando vai bem

  • Cada gestor sabe explicar seu número e o raciocínio que vem de cima dele
  • As devoluções chegam em uma semana e trazem dados, número e necessidades
  • Duas a três rodadas por par de níveis e, então, uma decisão com responsável
  • Condições escritas ao lado das metas na matriz X e analisadas junto com elas
  • A primeira contraproposta honesta da temporada é agradecida em público

Depois do catchball: do compromisso à análise

O catchball termina quando cada meta breakthrough tem três coisas: um responsável um nível abaixo que disse o número em voz alta, condições por escrito e um ritmo de análise. Dali em diante, cada meta vira a raiz de um galho da árvore de indicadores, para que os números do turno se liguem a ela por causa e efeito, e o andamento dela cai na análise crítica pela direção mensal, onde uma condição atrasada dispara renegociação em vez de culpa.

É nessa passagem que o desdobramento costuma vazar. O acordo da terceira rodada fica na ata da reunião e, lá pelo meio do ano, ninguém mais acha o que dependia do quê. No caso de uso de desdobramento da estratégia do TeamGuru, os objetivos ficam registrados com seus responsáveis e com as condições anexadas, de modo que a análise lê o acordo de verdade, e não a lembrança dele.

Ferramenta gratuita

Escreva o acordo da terceira rodada numa matriz X

Objetivos, responsáveis, iniciativas e indicadores em uma página, com as correlações marcadas. Exporte em PNG ou PDF e compartilhe o link. Sem cadastro.

Abrir o X-Matrix Builder

No roteiro, o próximo passo é o gerenciamento diário: as metas combinadas chegam aos quadros de nível como números que um turno consegue influenciar, e é aí que um compromisso firmado na sala de planejamento começa a ser cumprido numa terça-feira qualquer.

Catchball: diagrama de implementação (guia TeamGuru)

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O diagrama deste guia como imagem, livre para usar em treinamentos e workshops internos.

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Catchball: diagrama de implementação (guia TeamGuru)

Perguntas frequentes

De onde vem o nome catchball?
Da imagem de jogar a bola de um lado para o outro. A meta sai de um nível, é recebida, estudada e devolvida diferente, e as rodadas continuam até que os dois níveis tenham o mesmo compromisso na mão. O termo nasceu dentro da prática japonesa de Hoshin Kanri e viajou com ela para o desdobramento da estratégia no Ocidente. No Brasil, quem aprendeu com o gerenciamento pelas diretrizes (GPD) de Falconi reconhece a mesma lógica na negociação de metas.
Quantas rodadas de catchball são normais?
De duas a três por par de níveis. A primeira é a proposta, a segunda é a contraproposta com dados, a terceira é a decisão. Se você passou da terceira, ou falta o dado que permitiria decidir, ou a resposta já estava dada desde o início e as rodadas são teatro.
Quanto tempo deve durar o catchball?
De duas a quatro semanas em uma planta, com os pares de níveis negociando em paralelo, e não um depois do outro. Menos do que isso e quem recebe a meta não teve tempo de analisar de verdade o tamanho do buraco. Mais do que isso e a temporada de planejamento começa a comer o ano de execução.
E se dois níveis não chegarem a um acordo?
Escalone o ponto específico com os dois conjuntos de dados na mesa, deixe o gestor sênior decidir e registre que aquilo foi uma decisão, não um acordo. A partir daí, o risco apontado na contraproposta é dele. Isso ainda é um desfecho saudável: divergência aberta no planejamento é muito melhor do que descobrir no 3º trimestre que ninguém tinha assumido nada.
O catchball serve só para o planejamento anual?
Não. O mesmo joga e devolve funciona para escolher iniciativas de melhoria, resolver disputa de recursos entre áreas e renegociar uma meta no meio do ano quando uma condição combinada atrasa. O planejamento Hoshin anual é só onde o método trabalha mais pesado.
Qual a diferença entre catchball e definir metas do jeito tradicional?
O sentido e o ônus da prova. Na definição tradicional os números andam em uma direção só, de cima para baixo, e o papel de quem recebe é aceitar. No catchball devolver a bola é obrigatório, a devolução precisa trazer dados e necessidades, e o número final pode mudar. É isso que transforma uma meta comunicada em um compromisso.

Guarde o acordo, não só o número

Veja como o TeamGuru registra os objetivos desdobrados com responsável, condições e análises, para que o que foi combinado no planejamento seja o que vai ser gerenciado o ano todo.